Correios: O que está acontecendo?
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Introdução
Mais uma vez vamos falar de Correios aqui no site. Esse é um tema recorrente, por aqui visto que é uma das principais empresas de logística do Brasil, e principalmente por ser uma empresa estatal, suas ações impactam diretamente no bolso de nós brasileiros.
Correios: o que está acontecendo?
Os correios divulgaram um prejuízo de 6 bilhões de reais no até setembro de 2025. Só o valor de prejuízo do primeiro semestre já era maior do que o do ano passado inteiro. Não quero falar de política aqui no canal, mas é inegável acompanhar o resultado da empresa que saiu de um prejuízo gigantesco dos governos Lula e Dilma, para voltar a ficar positiva no governo Temer, e continuar nos primeiros anos do Bolsonaro. Importante ressaltar que a trajetória negativa começa no último ano do presidente anterior, e se acentua ainda mais com o novo governo. E quais são as principais causas desse prejuízo?
Causas do prejuízo
Difícil pensar em Correios e não se lembrar das imagens marcantes do escândalo do mensalão, onde dinheiro vivo circulava abertamente nas salas dos diretores dos correios como propina para compra de votos de parlamentares. Tudo baseado em contratos superfaturados.
A situação financeira da companhia agora é ainda pior, e até o momento nenhum novo escândalo de corrupção surgiu, então vamos tentar nos ater aos principais fatos que levaram a empresa a essa realidade calamitosa. Vou falar sobre 6 grandes causas que contribuíram para o problema.
A gestão política e não técnica da estatal foi um dos primeiros erros. O presidente da empresa escolhido pelo governo, Fabiano dos Santos Silva, era um advogado, integrante do famoso Grupo Prerrogativas, que nunca tinha sido gestor em nenhuma empresa, principalmente do porte dos Correios. E aí se viu a farra que acontece em todas as estatais, diversas nomeações de indicados políticos para cargos de diretoria,com a grande maioria deles sem nenhuma formação técnica ou afinidade com o setor de trabalho. Apenas para agradar os políticos da base do governo. Atualmente o presidente é Emmanoel Schmidt Rondon, um profissional de carreira no setor financeiro, que de acordo com o currículo, ocupou posições executivas no BB desde 2017.
Eu falei em um vídeo anterior que fiz no canal sobre os correios, sobre o absurdo que é termos uma empresa tão importante e sem um diretor de operações indicado para o cargo. Agora parece que esse problema foi resolvido.No site dos Correios está indicado que o Sérgio Freitas assumiu essa posição, funcionário de carreira da Infraero, com quase 30 anos de experiência, e especialização em gestão aeroportuária, traz um pequeno alento que temos uma pessoa com algum conhecimento de operações logísticas para a empresa.
Outro problema foram os aumentos salariais e de benefícios acima da inflação. De 2023 para cá, somente os valores com reajustes, elevaram a folha salarial da empresa em mais de 2 bi de reais. Agora novamente a empresa está enfrentando problemas com os funcionários na discussão sobre reajustes, e já tem sindicatos falando sobre greve.
Um erro gigantesco do governo, que era totalmente previsível, foi muito discutido sobre isso, mas não foi levado em consideração foi a famosa “taxa das blusinhas”, ou a implantação do remessa conforme. O governo tinha expectativa de aumento de arrecadação, mas quem diria que aumentar impostos, aumentando o custo dos produtos faria com que as pessoas parassem de comprar ao invés de simplesmente pagar mais caro? Com a redução de compras, ocorre, consequentemente a redução da necessidade de transporte. Com isso, os Correios estimam uma perda de receita em mais de 2 bilhões de reais depois da implantação desse novo imposto sobre importações. Sem falar é claro na perda de arrecadação do governo, e claro redução do bem estar da população, sendo essa uma taxa que afeta diretamente aos mais pobres.
Dificuldades no fluxo de caixa fazem com que ocorram atrasos em pagamentos de fornecedores. Diversas paralisações pontuais estão ocorrendo desde o início do ano em regiões diferentes do Brasil. Sempre estamos escutando sobre paralisação de fornecedores por falta de pagamento, cada hora de um lugar diferente. Os fornecedores param, os serviços são afetados e o dinheiro aparece as dívidas são quitadas o serviço volta, e de repente acontece de novo em uma outra região o processo todo de novo. Isso vai gerando dificuldade para os usuários, que perdem a credibilidade nos Correios, e principalmente empresas, buscam alternativas em outras transportadoras para tentar driblar essa crise, clientes que vão para o mercado, e provavelmente não voltarão se não houver uma mudança real na empresa. E não são apenas fornecedores da parte operacional, em Santa Catarina os trabalhadores chegaram a fazer uma paralisação pois a empresa de limpeza estava há mais de 3 meses sem receber os pagamentos e parou de realizar os trabalhos, gerando acúmulo de sujeira e condições precárias de higiene nas unidades. Além de falta de itens básicos como papel higiênico e sabonetes.
Um dos problemas que a gestão política da empresa não consegue combater é justamente sobre eficiência operacional. Os custos operacionais da empresa dispararam nos últimos anos, e um dado chama muita a atenção, apenas 15% das 10638 unidades de atendimento dos Correios são superavitárias. Ou seja, há um problema grave de receitas x custo em 85% das unidades. Apesar de ter por obrigação que garantir o atendimento universal em todos os municípios do Brasil, tenho certeza que é possível otimizar muito essa operação. Tem muito mato alto para ser cortado logo de cara por um profissional experiente em gestão de logística. Eu sei que em empresas de logística é comum termos algumas unidades que possam ser deficitárias, mas atender a alguma estratégia específica, mas fica claro que nenhuma empresa consegue se sustentar com apenas 15% de unidades conseguindo pagar seus custos e tendo que sobrar recursos para as outras 85%. Enquanto os concorrentes estão se modernizando, investindo em tecnologia de ponta, estrutura e velocidade de entrega. Os correios enfrentam uma estrutura gigantesca, lenta e com dificuldade para inovar.
Existem outros problemas que também contribuem para o prejuízo, mas esses são os mais graves e fáceis de serem identificados. E chama a atenção que qualquer tropeço gera prejuízos de bilhões de reais.
Solução do governo
Vamos falar de soluções já em andamento e propostas pelo governo e pela própria empresa.
Plano de Demissão Voluntária para os funcionários. Forma de reduzir folha salarial, não houve detalhamento de como vai ser agora, mas o último PDV da empresa no início do ano teve adesão de cerca de 2500 funcionários, reduzindo cerca de 200 milhões na folha de pagamentos anual da empresa. Gera mais um stress com a turma, que como eu disse já pensa em greve. Demissão, sem investimento em tecnologia e estrutura, só vai fazer piorar os serviços.
Venda de imóveis ociosos. A estrutura da empresa é muito grande e com certeza tem muito a ser enxugado como eu falei anteriormente. Além da possibilidade de liberar novos imóveis, já existem diversos imóveis vazios ou subutilizados que podem ser vendidos, para gerar caixa e reduzir gastos com a manutenção e segurança desses locais. Isso deveria ser feito para ontem.
Outro ponto interessante sobre os imóveis dos Correios é a possibilidade de criação em conjunto com a Caixa Econômica Federal de um fundo imobiliário com esses bens. Isso traria um investimento para o caixa da empresa, e os investidores receberiam os alugueis, como ocorrem em outros fundos. As negociações estão em estágio inicial, e se vai realmente sair é conversa para o futuro.
Falou-se também na renegociação de contratos com fornecedores. Esse é um ponto interessante e precisamos acompanhar para ver como vão ser as discussões sobre isso, principalmente porque aqui é onde está a maior possibilidade de eventos de corrupção.
A busca por um empréstimo de 20 bilhões com bancos, para tentar ajustar o fluxo de caixa e também pagar dívidas com juros mais altos. Esse é um ponto que tem gerado bastante crítica, pois o valor é muito alto, quase do tamanho das receitas da empresa, e o governo oferece ativos publicos como garantia, o que na prática é, se os Correios não pagar a dívida, quem vai pagar vai ser o contribuinte. Esse empréstimo também não é certo até o momento os bancos estão em negociação, a proposta oferecida por eles comtemplavam um juros fora da realidade de mercado para um montante desses e não se sabe se realmente vai acontecer.
Hoje o governo fala em aporte próprio de recursos do tesouro na empresa para tentar sanear um pouco das dívidas, o que na prática é o que eu já falei, o dinheiro do contribuinte pagando pela farra e descontrole gerados pelos próprios comandantes da empresa.
Vai resolver?
Os especialistas temem que a injeção de dinheiro na empresa seja como jogar água em uma frigideira quente, vai fazer um fervedouro, mas vai evaporar rapidamente. Se a empresa não mudar o modelo operacional com foco em otimização de processos e redução de custos, de nada vai adiantar essa operação financeira, apenas contribuindo para mais endividamentos. Isso gera a necessidade do governo aportar dinheiro na empresa, o que desvia recursos de todas as outras demandas do país.
Na minha opinião, um trabalho operacional sério precisa ser feito, parar de ser tratada como uma empresa política e sim como um operador logístico é necessário para mudar a situação. Hoje vivemos em um mundo totalmente digital, e no nosso setor os investimentos em tecnologia e modernização são essenciais para se manter no mercado. É isso que vemos acontecer nas maiores empresas do setor, e os correios patinam nesse processo. Se isso não for feito, não adianta colocar dinheiro. Funciona apenas como um remédio paliativo para um doente terminal, só vai adiar uma morte inevitável.
Eu quero saber a sua opinião sobre esse assunto. Você acredita que ainda tem saída para essa crise dos Correios? O que precisa ser feito para isso?


