Correios: Qual a melhor solução?

Correios

Correios: Qual a melhor solução?

Correios: Qual a melhor solução? Confira esse conteúdo também em vídeo:

Você já conhece o nosso canal no Youtube? Toda semana temos vídeos novos com conceitos, curiosidades, temas do momento, tudo para você  aprender mais e se manter informado sobre o que acontece no mundo da logística e supply chain! Clique aqui e confira.

Introdução

Qual melhor solução para os Correios: manter como estatal, abrir parte do capital ou privatizar tudo de vez?

Esse debate vem crescendo no Brasil, e envolve muito mais do que só entregas. Estamos falando de acesso a serviços em todo o país, logística nacional, inclusão digital e geração de receita para o Estado.

Nesse artigo eu estudei como é prestado o serviço de Correios em diversos países pelo mundo, vou fazer aqui uma comparação de como eles funcionam, e no final vou dar a minha opinião de como seria a melhor versão para os Correios continuarem em operação.

Correios, a evolução das entregas

Antes, o principal serviço era a entrega de cartas e telegramas. Os mais antigos vão se lembrar de como era gostoso a ansiedade da espera e a alegria de receber uma cartinha. E vão se lembrar também como muita coisa chegava de forma física em casa, principalmente todos os boletos que tínhamos que pagar, que não geravam ansiedade nenhuma para o recebimento. Hoje, com a digitalização, isso representa uma fração mínima das operações, estima-se que nos últimos 20 anos o volume de correspondências movimentado pelos correios tenha caído mais de 70%. Por outro lado, o comércio eletrônico explodiu — e com ele, cresceu também a demanda por um operador logístico eficiente, que atenda de capitais a regiões remotas do nosso país.

Atualmente, os Correios são uma empresa pública federal 100% estatal. Possuem presença nacional e prestam o serviço postal universal. Apesar dos avanços em logística, ainda enfrentam críticas sobre ineficiência, atrasos e concorrência desigual com o setor privado. Isso sem falar no prejuízo financeiro gigante que só cresce a cada dia que passa na gestão atual da empresa. Falamos sobre isso no vídeo anterior aqui do canal, vou deixar aqui para você assistir.

Existe um chamado papel social dos Correios, que é: ser um agente de cidadania e integração nacional, levando serviços essenciais (cartas, encomendas, financeiros) a todos os municípios do Brasil. O desafio é: como modernizar essa estrutura sem comprometer o acesso e o papel social dos Correios?

Como funciona em outros países?

Os países desenvolvidos adotam três modelos principais para suas empresas postais:

  • Modelo estatal (ex: EUA, Canadá, França)

Empresas como a USPS (EUA), Canada Post e La Poste (França) são 100% estatais. O governo mantém o controle total e garante a entrega universal, inclusive em áreas deficitárias.

Vantagens: acesso garantido, proteção social
Desvantagens: pouca agilidade, dependência de orçamento público

A La Poste, mesmo sendo estatal, tem uma autonomia interessante, inclusive sendo investidora em outras empresas pelo mundo, é dona da Geopost, que presta serviços de logística internacional em diversos países através de suas empresas como a DPD na Europa e a Jadlog aqui no Brasil.

Em geral essas empresas, mesmo públicas se autossustentam, mantendo o chamado papel social, realizando o serviço postal universal, mas sem gerar prejuízos para o contribuinte desses países.

  • Modelo de economia mista (ex: Alemanha, Japão, Itália)

Empresas como a Deutsche Post/DHL, Japan Post e Poste Italiane abriram capital parcialmente, mantendo o governo como acionista majoritário ou relevante.

Elas combinam capital privado com controle estatal, podendo captar recursos, expandir globalmente e inovar, mas ainda com obrigações públicas. E sujeito a interferências políticas, como o governo ainda é acionista da empresa. Mas nesses países, geralmente existe uma independência maior do que costumaos ver aqui, mesmo sendo ainda parte estatal.

  • Modelo privado (ex: Reino Unido, Portugal e Holanda)

A Royal Mail (Reino Unido), a CTT, Correios de Portugal e a PostNL (Países Baixos) foram totalmente privatizadas. O Estado não possui mais ações, mas essas empresas continuam obrigadas a prestar o serviço universal por contrato. Tem total independência, mas precisam continuar atendendo o serviço de cartas e telegramas.

Vantagens: alta eficiência e modernização
Desvantagens: risco de abandono de áreas não rentáveis (ex. Post NL solicitou recentemente ao governo holandês a possibilidade de reduzir a frequência de atendimento em regiões não lucrativas, deixando de ser diária para ser 3x por semana).

Caminhos para o Brasil

No Brasil, qualquer um dos três caminhos já foram ou vem sendo debatidos:

  • Manter estatal e investir na modernização com recursos públicos;
  • Privatizar de forma total, como o Reino Unido;
  • Abrir o capital parcialmente e seguir o modelo Petrobras ou Deutsche Post.

Na minha opinião, o melhor modelo a seguir, nesse momento seria semelhante ao da Petrobras. Atualmente, a Petrobras é uma empresa estatal com ações negociadas na bolsa. O governo brasileiro mantém o controle majoritário, mas parte do capital está nas mãos de investidores privados. Isso obriga a empresa a seguir regras de governança, transparência e metas de desempenho. Como a gente viu em anos recentes no Brasil, não elimina totalmente a possibilidade de corrupção e de tomada de decisões erradas, mas por outro lado, esse modelo permite captar recursos no mercado para investir e crescer, sem que o governo perca o controle estratégico.

No caso dos Correios, isso poderia significar modernização, expansão de serviços, aumento de competitividade e mais eficiência — tudo isso mantendo o serviço universal sob a supervisão do Estado. Não vejo clima e nem vontade política para uma privatização 100% da empresa, e acredito que essa venda de parte do negócio, mudando o status da empresa e aliada a uma gestão profissional, pode gerar uma evolução grande e rápida para a empresa.

Mesmo em modelos privados ou híbridos, como vimos no Reino Unido e na Holanda, os serviços básicos — como a entrega de cartas, correspondências oficiais e cobertura nacional — continuam existindo. Isso é garantido por contratos de concessão ou obrigações regulatórias. O maior desafio é garantir que isso seja bem fiscalizado e que haja penalidades reais em caso de descumprimento, dificuldade essa já existente em praticamente todos os setores que foram privatizados no nosso país, e até nos setores que nunca foram estatais. Fiscalizar e cobrar que regras sejam seguidas não é a melhor característica do nosso país.

De qualquer maneira, a decisão sobre o futuro dos Correios não é simples. Precisa ser tomada urgentemente, mas já vamos entrar em ano eleitoral novamente, e normalmente nesses anos nada de realmente grande ou estruturante é decidido nesse país. Nesse caso, podemos esperar novidades somente para 2027. Até lá, na minha opinião, o Correios seguirá sangrando e o governo acabará cobrindo o rombo tirando recursos do tesouro, que poderiam ser direcionados para outros fins, como saúde e segurança.

Conclusão sobre os modelos

  • Um modelo estatal garante presença e controle social.
  • Um modelo misto pode unir agilidade e missão pública.
  • E um modelo totalmente privado aposta na eficiência e competitividade.

E para você? Qual desses caminhos parece a solução mais adequada para os Correios aqui no Brasil?

Rafael Duarte é economista. Possui ampla experiência em empresas brasileiras e multinacionais na área de logística, transportes e comercio internacional, atuando no Brasil e no exterior. Acha que podemos simplificar o conteúdo de logística disponível na internet, sem perder a qualidade.